Pela fresta

Wednesday, January 31, 2007


Sempre achei curioso como, à medida em que conhecemos alguém e vamos aprendendo a gostar da pessoa, ela acaba se tornando mais bonita aos nossos olhos. É como se o gostar, o sentimento de querer bem, de admirar, apreciar, fosse uma lente que nos dá o poder de enxergar melhor, além do que se vê superficialmente, da aparência. É algo mágico, que não tem muita explicação, mas que sempre me encantou.

Essa comparação me lembra os vários exames de vista que já fiz. Além de míope, ganhei também no pacote o astigmatismo, que resolveu aparecer em alto grau justo quando o outro problema se estabilizou. No exame, o oftalmologista coloca um instrumento na altura dos olhos - um misto de binóculo com óculos gigante - e nos pede para ler as letras no quadro. Então, ele vai colocando lentes diferentes de cada lado e pergunta: Está melhor assim ou assim? Essa lente é melhor do que aquela? Não sei vocês, mas confesso que muitas respostas foram no chute, porque não conseguia mais distinguir, a um certo ponto, o que representava uma melhora mais significativa.

É gostoso perceber a transformação que os sentimentos vão provocando e que não há creme ou tratamento mais poderoso do que um sorriso amigo, um abraço, um elogio, uma palavra de carinho. Ou as afinidades que vamos descobrindo, as palhaçadas que tornam a noite mais sem graça um programa super divertido e as lágrimas repartidas que aproximam e confortam. Porque, no fim, são todas essas coisas que fazem a vida ganhar sentido e valer a pena e não uma barriga sarada, um cabelo de comercial de xampu ou corpos perfeitos como os das revistas.

Tuesday, January 23, 2007


Hoje eu só queria brincar, sentir-me leve. Ir ao bar perto de casa comprar chiclete e achar que isso é uma grande aventura, ao ver aqueles homens falando alto e tomando suas cervejas. Com suas caras meio assustadoras, como os vilões dos contos de fada devem ter: rugas, marcas, cicatrizes, falta de cabelo, rosto "amassado", maltratado, de quem já viveu muitos anos.



Me preocupar apenas em ganhar no jogo de amarelinha, conseguir me equilibrar para não encostar na linha, passar para a próxima casa e, com sorte, chegar primeiro ao céu.



Criar histórias, cheias de romance, filhinhos, muitas roupas, carros, uma casa bacana, com as minhas bonecas. E sonhar que um dia eu terei tudo aquilo de verdade e serei adulta, bonita, segura e feliz, muito feliz.

Brincar no balanço e ter a sensação de voar, de chegar cada vez mais alto. Sentir um friozinho na barriga porque sempre há o medo da queda, mas arriscar e pegar mais impulso para ver até onde dá para ir.


Abraçar meu ursinho preferido, tão fofo, macio, aconchegante e até dormir com ele, se a alergia deixar. Ah, é tão bom ser criança! Por que a gente cresce e complica tudo? Por que as coisas parecem sempre ser mais difíceis pra gente? Por que? Por que?

Sunday, January 21, 2007



não me acorde


ATENÇÃO: OS POSTS ESTÃO NA ORDEM INVERSA


eu chego lá


quando? onde? como?


vou praí
para o não-sei-onde
me espera



um lugar todinho meu
de sonho
um lugar pra ser feliz
longe daqui


Em resposta a uma amiga distante, sentiu o gosto amargo formando-se à medida que escrevia. "As papilas gustativas da ponta da língua detectam os sabores doces; as laterais, os sabores salgados e ácidos; e as da parte posterior da língua, os sabores amargos (Manual Merck)".

__ Hum... Nem sabia que estava assim hoje....

A vinda que não se concretizou, o fim de semana pacato, os filmes que decepcionaram, a fome que insiste em aparecer em sua sabe-se lá X tentativa de fechar a boca e emagrecer. A mãe preocupada vem perguntar se não vai comer mais nada. Diz que não é assim que se faz, que ela tem que fazer exercícios, caminhar no calçadão, pelo menos, que tem que se reeducar - a ladainha de sempre.

__ Calma aí, se não esquento com o meu peso e os muitos quilos a mais, reclamam. Não são nem um pouco sutis em suas observações e dizem que tenho que me cuidar, que tenho que gostar de mim. Agora que botei na cabeça a idéia e estou tentando, falam que não é bem assim e fazem aqueles pratos irresistíveis - macarrão aos quatro queijos, churrasco, farofa. Eu que sei a dificuldade de segurar a vontade louca e gorda de comer pizza, chocolate, salgados, de tomar um sorvete e todas essas coisas proibidas. Quer saber, foda-se. Não sou louca e sei que se ficar sem comer vou passar mal, vou virar anoréxica, esse papo todo.

A verdade é que os resultados demoram e as insatisfações vão continuar. Verão, praia, piscina, ela passa longe disso. Sempre vem com aquela farsa de não gosto disso, mas o terror de colocar um biquíni, a raiva e a inveja de ver as lindas, magras e saradas... Não, ela não agüentaria. Pelo menos, hoje não. E vão dizer que isso é bobagem, que ela não pode ser assim, mas é muito fácil falar e julgar. Principalmente porque a maioria que diz isso, não tem o mesmo problema, não sabe como é. Como a mãe, a irmã, deus e o mundo.

__ Pronto, falei. Estou parecendo uma psico, uma louca que não tem auto-estima, obcecada, mas não sou assim. Acreditem ou não.

Por que as pessoas nos filmes, as celebridades, os outros, têm vidas tão interessantes? São tão autênticos, cheios de histórias, dores, amores, amigos, diversão, e fazem a gente se sentir pequenininho, pequeninho. Sem graça, chato, politicamente correto, sem sorte.

__ Hein? Me diz porquê, me explica, tenta me convencer do contrário. Me abraça. Por que tantas neuras? Por que a gente é assim? E que se dane se os porques estiverem escritos errado, porque eu não sei mesmo qual a regra de uso dos porques.

Cadê o meu jardim? Ela lembra da peça que a amiga assistiu em BH, que ela ficou com vontade de ver também, ao ouvi-la contar. Ca-dê-o-meu-jar-dim?

__ Explico: essa pergunta seria, pelo que eu pude entender e como eu quero que seja aqui, cadê a minha parte boa, quando chegará a minha hora, a hora de ser feliz?

E a compra que a deixou em dúvida, mas acabou não resistindo. Um DVD. Foi só instalar para ele perder todo o seu valor. Para surgir a dúvida: ela precisava mesmo disso? Não poderia ter esperado?

O filme "Anjos do Sol", crianças sendo corrompidas, machucadas, humilhadas, destroçadas, para satisfazer os desejos dos homens, doentes. Como isso pode acontecer??? Onde vai parar a humanidade? Estamos nos destruindo e parece não ter mais volta.

A falta do que fazer, a solidão, os problemas que a gente insiste em criar e o velho ditado: cabeça vazia, oficina do diabo.



Quando ninguém mais esperava, ela resolve abrir a caixinha novamente e liberta sentimentos, pensamentos, divagações e histórias...