
Em resposta a uma amiga distante, sentiu o gosto amargo formando-se à medida que escrevia. "As papilas gustativas da ponta da língua detectam os sabores doces; as laterais, os sabores salgados e ácidos; e as da
parte posterior da língua, os sabores amargos (Manual Merck)".
__ Hum... Nem sabia que estava assim hoje....
A vinda que não se concretizou, o fim de semana pacato, os filmes que decepcionaram, a fome que insiste em aparecer em sua sabe-se lá X tentativa de fechar a boca e emagrecer. A mãe preocupada vem perguntar se não vai comer mais nada. Diz que não é assim que se faz, que ela tem que fazer exercícios, caminhar no calçadão, pelo menos, que tem que se reeducar - a ladainha de sempre.
__ Calma aí, se não esquento com o meu peso e os muitos quilos a mais, reclamam. Não são nem um pouco sutis em suas observações e dizem que tenho que me cuidar, que tenho que gostar de mim. Agora que botei na cabeça a idéia e estou tentando, falam que não é bem assim e fazem aqueles pratos irresistíveis - macarrão aos quatro queijos, churrasco, farofa. Eu que sei a dificuldade de segurar a vontade louca e gorda de comer pizza, chocolate, salgados, de tomar um sorvete e todas essas coisas proibidas. Quer saber, foda-se. Não sou louca e sei que se ficar sem comer vou passar mal, vou virar anoréxica, esse papo todo.
A verdade é que os resultados demoram e as insatisfações vão continuar. Verão, praia, piscina, ela passa longe disso. Sempre vem com aquela farsa de não gosto disso, mas o terror de colocar um biquíni, a raiva e a inveja de ver as lindas, magras e saradas... Não, ela não agüentaria. Pelo menos, hoje não. E vão dizer que isso é bobagem, que ela não pode ser assim, mas é muito fácil falar e julgar. Principalmente porque a maioria que diz isso, não tem o mesmo problema, não sabe como é. Como a mãe, a irmã, deus e o mundo.
__ Pronto, falei. Estou parecendo uma psico, uma louca que não tem auto-estima, obcecada, mas não sou assim. Acreditem ou não.
Por que as pessoas nos filmes, as celebridades, os outros, têm vidas tão interessantes? São tão autênticos, cheios de histórias, dores, amores, amigos, diversão, e fazem a gente se sentir pequenininho, pequeninho. Sem graça, chato, politicamente correto, sem sorte.
__ Hein? Me diz porquê, me explica, tenta me convencer do contrário. Me abraça. Por que tantas neuras? Por que a gente é assim? E que se dane se os porques estiverem escritos errado, porque eu não sei mesmo qual a regra de uso dos porques.
Cadê o meu jardim? Ela lembra da peça que a amiga assistiu em BH, que ela ficou com vontade de ver também, ao ouvi-la contar. Ca-dê-o-meu-jar-dim?
__ Explico: essa pergunta seria, pelo que eu pude entender e como eu quero que seja aqui, cadê a minha parte boa, quando chegará a minha hora, a hora de ser feliz?
E a compra que a deixou em dúvida, mas acabou não resistindo. Um DVD. Foi só instalar para ele perder todo o seu valor. Para surgir a dúvida: ela precisava mesmo disso? Não poderia ter esperado?
O filme "Anjos do Sol", crianças sendo corrompidas, machucadas, humilhadas, destroçadas, para satisfazer os desejos dos homens, doentes. Como isso pode acontecer??? Onde vai parar a humanidade? Estamos nos destruindo e parece não ter mais volta.
A falta do que fazer, a solidão, os problemas que a gente insiste em criar e o velho ditado: cabeça vazia, oficina do diabo.